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Superando perdas e dores: a bola não pode parar E-mail
07 de fevereiro de 2009 - 20:12
capa_23_070209No exato momento em que Carlos Simon pisou no gramado, lá pelas 19h30, na descida do crepúsculo no Bento Freitas, os tambores dos Xavantes rufaram sem piedade, enchendo o estádio de sons, ritmos e cantorias, sem racismo e sem baixarias.

   O árbitro FIFA responde perguntas à imprensa, posa para fotos, solta alegria pelos olhos ao ver a festa que faz a torcida do outro lado da casamata dos visitantes. De repente, o silêncio seco dos tambores. O público se levanta. Em coro começa a cantar, fazendo tremer o estádio: “Vamos rubro-negro. Vamos meu Xavante querido. A raça do Interior. Oh!Oh!Oh!” Voltam os tambores pra sacudir as estruturas do estádio em reforma.

  São milhares de pessoas todas misturadas de brancos, negros e uns tantos de outras cores, uns gringos e uns índios, monte de guris e pencas de gurias, todos pelo menos com um adereço de preto e vermelho grudado no corpo. Todos irmanados na garra Xavante.

   O Bento Freitas treme de novo, os tambores voltam mais graves, agora acompanhados dos metais, reco-recos e tamborins. O ritmo, a música vai contagiando a galera. Já falam em mais de 12 mil. Simon olha para um lado e pro outro e solta a frase com vigor e simpatia em direção aos assistentes: “vamos nos fardar!”. Senha para concentração total.

capa_16_070209Campo minado

  Foi um jogo emblemático, marcado por muitos significados. Simon parecia saber muito bem disso. Tratava-se da partida de estréia do Brasil de Pelotas no Gauchão 2009, 3 de fevereiro, 19 dias depois do acidente de ônibus que matou o ídolo uruguaio Claudio Milar, o zagueiro Régis e o preparador de goleiros Giovani Guimarães, e deixando todos os demais jogadores feridos. Agora, a partida era válida pelo Campeonato Gaúcho.

  Em campo, o mesmo time que jogou o amistoso realizado lá em Santa Cruz, antes do trágico acidente, só a metade estava em campo. A outra, repousava nos hospitais ou em enfermarias. Na beira do gramado, o presidente Xavante, Helder Lopes, informava à imprensa que oito jogadores ainda seguiam hospitalizados e pelo menos cinco não estavam liberados para treinamentos.  

capa_20_070209  A data coincidia também com uma semana logo depois das chuvas que devastaram uma parte da região pelotense, deixando milhares de desabrigados e pelo menos 14 mortos. Era de fato um confronto de futebol, mas tinha um cenário inevitável de perdas e dores. Um cenário configurado por fatalidades, tragédias, fúrias da natureza e distintas perdas materiais e emocionais que comoveram o Rio Grande e o Brasil. Foi muita coisa para um mês só.

  Então, com a bola rolando, no jogo jogado, não poderia haver riscos no comando, no controle da disciplina e principalmente no aspecto emocional da partida. Essa era a missão e a responsabilidade de Carlos Simon, conduzir o espetáculo, ainda que em campo minado, sem deixar doloridos, feridos e muito menos mortos. A Justiça e a alegria teriam que prosperar pela via do apito.  

Alegria maior do que a tristeza
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  Enquanto as equipes e a arbitragem se preparavam nos vestiários, o grupo circense Tholl aprontava uma grande fuzarca dando a volta olímpica no estádio, provocando e encantando os torcedores com suas fantasias, bonecos, figuras exageradamente maquiadas, fazendo piruetas, em trajes coloridos e extravagantes. Era uma forma de purgar a tristeza e pavimentar o caminho para o triunfo da alegria rubro-negra.

   Logo em seguida, na meia lua do gramado, inúmeros torcedores uruguaios desfraldaram uma enorme bandeira celeste com o rosto de Milar aplicado sobre o azul e o branco, comovendo a platéia do Bento Freitas, que, depois de um respeitoso quase silêncio, se abriu em intensas palmas. A nação Xavante prestava a derradeira homenagem a um dos seus maiores ídolos.

  Dunga, treinador da Seleção Brasileira, também marcou presença, sempre muito aplaudido e assediado pela imprensa, percorreu o gramado saudando a massa entusiasmada. “Estou encantado com tudo isso, com essa superação do Xavante. Trago minha solidariedade e meu carinho. Essa torcida é um exemplo para todos e merece o nosso apoio”, declarou o Capitão do Tetra.
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  Já o vice-presidente da CBF e ex-presidente da FGF, Emídio Perondi, disse que ficou comovido em ver a casa cheia, com todos colaborando com o Brasil. “É um espetáculo de grandeza, um exemplo de superação para muitos clubes. A bola não pode parar”, apontou.

   No mesmo caminho, o presidente da Comissão de Arbitragem da FGF, Luiz Fernando Moreira, arrematou: “A torcida Xavante está nos mostrando que a alegria tem que ser maior que a tristeza”. Em outra frase, reproduzida no rádio, o atacante Kelson da equipe da casa resumiu o espírito do jogo: “É o reencontro com a massa em uma noite de gala”.

Partida elétrica
 
capa_17_070209   Antes do apito inicial, depois do sorteio da moeda, Simon determina um minuto de silêncio, mas os torcedores não se calam e começam a sussurrar em crescendo os nomes dos ídolos e do preparador Guimarães. Respeitado o tempo estabelecido, um gesto do árbitro, sem apito escandaloso é o suficiente para Deivid, o camisa dez, um dos craques do Santa Cruz, dar um tapa na bola  pra ela começar a rolar redonda, resultando num eletrizante jogo do início ao fim. Disputado palmo a palmo, acirrado, leal e de jogadas letais, o confronto acabou empatado em 3 a 3. Contentamento total de todos os lados, haviam proporcionado um show, um espetáculo de massa pra lá de disputado.

capa_25_070209Ao final do jogo, cumprimentos de todos os lados. Troca de olhares entre árbitro com os assistentes e demais integrantes da equipe. O sempre presente pelotão da BM, os apertos de mãos por iniciativa de jogadores, profissionais e técnicos dos clubes. Simon ainda caminha com expressão de concentrado. Passos firmes. Respiração controlada. O suor escorrendo pela testa. A bola embaixo do braço, um bandeira de cada lado e muitos microfones diante do nariz. Foi mais um bom jogo, diz ao contabilizar um pênalti, quatro cartões amarelos e nenhuma expulsão. Nas entrevistas, Simon diz apenas que a arbitragem “Foi um jogo peleado, corrido e bem jogado. O público mereceu, foi um grande espetáculo de futebol. Penso que a arbitragem cumpriu seu papel,” assinalou e acenou em direção ao torcedor que gritava seu nome da arquibancada bem acima da entrada dos vestiários.

Nas ondas do rádio 

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  Um locutor de uma rádio local diz ao fechar seu boletim. “Simon está construindo o caminho e a passos largos para se tornar o primeiro árbitro a representar o Brasil em três Copas do Mundo. Ele é o nosso homem do apito que está indicado para a de 2010, na África do Sul.”, encerrou o radialista. O apito mais uma vez passou batido, prevaleceu o espetáculo e a alegria do futebol.
 
  Talvez, vai lá saber, a torcida Xavante resolva adotar o lema daqui pra frente: A alegria continua! Um slogan para quem acredita que é preciso luta, trabalho coletivo e solidariedade para superar perdas e dores.


Equipe do apito

capa_24_070209  Simon no comando da partida contou com os assistentes José Franco Filho e Júlio César dos Santos. Jarles Vanduir Dreissig atuou como 4º árbitro e Marco Antônio Pereira Maciel trabalhou como delegado da Federação Gaúcha de Futebol. Completando a equipe, teve o apoio do grupo da Federação, comandado pelo experiente Paulo Ricardo Machado dos Santos, da Regional do SAFERGS de Pelotas, com o Marcos Maciel, Eduardo Maia, Adílson e Rogério Espilman, na linha de frente.


Recepção na Regional

   Os colegas da regional do SAFERGS em Pelotas, por conta da presença do presidente do Sindicato, promoveram um encontro com os associados e convidados, para recepcionar Simon e equipe de Porto Alegre. Além dos delegados da regional, marcaram presença os jovens árbitros e assistentes, alguns já escalados para o Torneio Citadino Riograndense.

capa_13_070209Participaram também os delegados da Federação Gaúcha de Futebol, Marco Antônio Pereira Maciel e Paulo Ricardo Machado dos Santos, além de Caetano Simon, filho do presidente e Louise Hallal, estudante de jornalismo na Universidade Católica de Pelotas.

  Na ocasião, Simon, depois de agradecer pela acolhida, destacou a organização da regional e falou da preparação do árbitro para um grande jogo. Foram distribuídos exemplares do jornal Marca da Cal, edição de fevereiro, aos participantes. A imprensa local registrou o encontro.

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Gols, empate e emoção no Bento Freitas
Nota de solidariedade
Veja mais fotos da partida


Assessoria de Imprensa do Safergs
Fotos: Daniel Boucinha
 
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