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Ódios e indiferenças - Ruy Carlos Ostermann E-mail
18 de setembro de 2007 - 20:08

"Essa paixão do torcedor (o que se retorce, enrola os fios, não desata)
é que sustenta a contrariedade com o árbitro, qualquer árbitro".


* Ruy Carlos Ostermann –  Professor e jornalista

    Medo de árbitro ninguém tem a não ser os desavisados, de outro ofício e por certo bem outra paixão. Apaixonados todos são ou ficam, mas o futebol tem uma especial forma de paixão. Nada a ver com mulher ou homem, filhos, família, livro ou grandes fatos. A paixão no futebol é difusa, se refere ao passado mas sem referências específicas, esse tempo, aquele tempo. É sempre, continuadamente a mesma, sempre.
   
    Essa paixão do torcedor (o que se retorce, enrola os fios, não desata) é que sustenta a contrariedade com o árbitro, qualquer árbitro. Os seres apaixonados no futebol apagam as relações de equivalência, abominam o fair play, suspeitam de uma justiça que valha também para o adversário. Na verdade, o que eles mais querem é destruir o adversário, eliminá-lo, ficar sozinhos, soberanos numa campo de uma metade só, felizes com o silêncio da derrota.
   
    Não é exagero, são apenas os fatos. O jogo de futebol é uma convenção que hostiliza o torcedor apaixonado. Ele determina uma espécie de confinamento, quase de exclusão. Essa sensação é a primeira força irracional dos apaixonados: eles se rebelam, gritam, empurram, quebram e acham graça com sarcasmo e algum ódio. E assim reconquistam o seu espaço, colocam-se diante do inimigo e demarcam o seu território, seja em que estádio for.

    É quase uma situação bélica, faltam canhões mas sobram rojões e pedras. As organizadas, de vários tipos e diversas índoles, subdividem as arquibancadas e, dependonde de quase nada, brigam entre si, dizem desaforos e não há quem possa apartar. Isso entre elas, do mesmo lado, de mesma paixão.
 
    À frente, as vezes perigosamente do lado, estão os outros apaixonados, do adversário, com a mesma formação para o confronto e sem trocar de objetivos, só de direção. São separadas por divisórias, pelo policiamento ostensivo, por uma faixa de gaza esvaziada, dez metros de alto a baixo, cimento de ninguém. São trespassadas por pedras e latas, quase se comovem de tanto palavrão atirado de lado a lado.
 
    Não há trégua nem entendimento. No fim do jogo, sai uma legião de apaixonados, a visitante espera e sai bem mais tarde. Saem gritando, chamando o adversário de tudo, só se consolam bem mais tarde quando começa a passar essa carapaça autorítaria e transgressora.
 
    Há estudos bem feitos e bem investigados sobre esse fenômeno mundial do desejo de morte das torcidas. Faço apenas uma introdução como relato, sem tese ou idéia mais respeitável. Mas assim fica fácil de se entender porque o árbitro, que deve produzir a justiça em meio a esse tumulto das paixões, não pode gerar o medo. Apenas o ódio ou o reconhecimento de que ele pode continar vivendo.

    Talvez seja um exagero, mas é o que penso muitas vezes.


Ruy Carlos Ostermann –  Professor e jornalista

Texto publicado  no Jornal 
MARCA DA CAL 
edição de fevereiro de 2007


 
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