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Luiz Zini Pires, da editoria de Esportes do jornal Zero Hora, na coluna Bola Dividida, prospecta cenários para o futuro de Carlos Simon, depois da Copa do Mundo na África do Sul.
Gremista? Colorado? A questão segue Carlos Simon como um centroavante impedido no 93º minuto de uma decisão e desde o primeiro dia que o mais famoso árbitro gaúcho de todos os tempos vestiu um calção preto e botou um apito na boca na periferia de Porto Alegre no ano de 1984. Ao contrário do pai, os quatro filhos do casal Carlos Eugênio e Cátia Castilho Simon, Tiago, Caetano, Carla e Ramiro, se dividem entre azuis e vermelhos. Empatam.
Simon fica em cima do muro e não está nem aí com certas questões regionais, desdenha as cores que faz o torcedor radical (ou não) pensar assim ou assado de um profissional com mais de mil jogos, quase meia centena de decisões, 26 anos de arbitragem, 13 com o superescudo da Fifa e duas Copas do Mundo no currículo. O Rio Grande é somente o ponto zero da interminável highway que liga estádios de todos os continentes e que o fez carimbar passaportes sucessivos em quase três décadas de aeroportos.
Simon está navegando no seu 44º ano de vida, quase o 45º, que será completado no dia 3 de setembro. Esta é a sua temporada derradeira, começo do seu fim como árbitro de futebol, que precisa se aposentar aos 45 anos de idade – era aos 50 até 1991. Odiado, acusado, ameaçado, secado, adulado, elogiado, ele é um sobrevivente de uma série quase interminável de jogos. Só regulando partidas de campeonatos nacionais e de Copas do Brasil são 16 longos e consecutivos anos. A confirmação da terceira Copa deve sair quinta-feira
Ele errou, ele acertou, ele não quer ser lembrado por nenhum grande lance, não quer ser rotulado por qualquer distração. Carlos Eugênio Simon deseja ser saudado como o árbitro brasileiro que apitou três Copas do Mundo, feito único, inédito, especialíssimo.
É só o que ele fala quando se acomoda no centro de uma mesa numa das salas da Redação de ZH numa manhã abafada. Parece mais magro, mais do que na tevê, mas é só impressão. É o efeito da confortável camisa polo creme. Ele se espanta.
– Magro? Nãaooo, tchê! Estou nos meus 70 quilos, com uma taxa de 1% de gordura corporal. É meu peso ideal. Estou voando – diz, sério.
Cidadão de Braga, município do noroeste gaúcho, menos de 4 mil habitantes, Simon corre, come e dorme pensando na Copa. Sonha com a África, e seus leões não devoram o árbitro no jogo final.
Ele está entre os sete representantes da América do Sul. O cruel é que no Mundial só cabem seis. Politicamente ele sabe que dificilmente o Brasil ficará sem um representante entre os 28 (ou 24) juízes da competição. A lista será divulgada quinta-feira no site da Fifa.
– Vai a elite da elite da arbitragem. Fiz provas em três seminários, Ilhas Canárias, África do Sul e Zurique. Fui bem em todos. Aos 44 anos, sou o mais velho do grupo, mas também o mais experiente.
Nos anos 1970, os árbitros corriam entre cinco e sete quilômetros a cada partida. Quarenta anos depois, a distância aumentou consideravelmente:
– No jogo do Barcelona, no Mundial de Clubes, que apitei em dezembro passado, corri 12,5 quilômetros. Na Copa de 2006, fiz 13 quilômetros na partida entre Alemanha e Suécia. Tu sabe qual o jogador que corre mais num jogo?
– Sim, é o ala, não é – eu digo sem pensar muito.
– Correto – ele diz, exibindo um ar professoral – Ele corre 12 quilômetros. Um atleta de meio-campo pode correr um pouco menos, talvez 10, quem sabe 11 quilômetros. No caso do juiz é ainda pior.
– Por quê?
– Ele não pode estar exaurido no momento em que entra na área ou se aproxima dela. Precisa de ar para raciocinar e marcar corretamente. Deve pensar. Precisa encontrar fôlego para que o lance não fique embaralhado na sua mente pelo cansaço, pelo esforço depois de um desgastante pique.
Simon consegue ver seu futuro, mas ainda não pode tocá-lo. A Copa do Mundo de 2010 é a sua grande janela, mas o vidro é espesso e ele ainda não consegue observar em detalhes o que se passa do outro lado. Os cenários ele consegue imaginar.
Após a Copa, Simon tomará outros rumos na vida
Um deles, o ideal, o que ele deseja, pede aos céus, reza, é dirigir um jogo da Copa, dois, quem sabe três, e se despedir na África em grande estilo e no torneio mais importante do futebol.
Como é otimista, não passa pela sua cabeça receber os jogos do Mundial pela TV na sala de estar.
Nem nos pesadelos que raramente tem.
Depois, tudo certo, tudo ok, aposentado, uniforme completo no armário, ele tem vários projetos. Jornalista desde 1993 com diploma da PUC na parede, Simon foi convidado para comentar arbitragem em uma rede nacional de tevê. O PT estadual o quer deputado. Falta decidir se em Porto Alegre ou em Brasília. Pedido é sempre reforçado por Lula quando encontra políticos locais. Atuar na comissão de arbitragem da CBF também é uma rota que o seduz. Proteger, ajudar, ensinar, formar árbitros nacionais é desejo antigo.
O
nosso árbitro, creia, é técnico de futebol formado. Fez curso em São Paulo, em 2002:
– Imagina, eu no banco, reclamando do árbitro, dizendo, ‘tchê, eu sei como a coisa funciona aí dentro…’
– Técnico? – Eu rio. Brinco.
Ele ri junto.
Simon tem menos de meio ano para pensar no amanhã e não será o fantasma do presidente palmeirense Luiz Gonzaga Beluzzo, que ameaçou quebrar a sua cara na rua após um lance polêmico em 2009, que vai assustá-lo.
– A Justiça se encarregará dele – garante.
A terceira Copa está à vista. Antes, o velho, bom Gauchão, sua última arena local, onde o azul e o vermelho o perseguem desde 1991.
Luiz Zini Pires/ZH
Foto: Reprodução CLICRBS
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